É estranho, para não dizer engraçado, com as pessoas têm capacidade de enfrentar grandes adversidades e muitas vezes se entragam para pequenos obstáculos.
Há aproximadamente 1 ano e meio minha mãe foi diagnosticada com câncer de mama, de uma forma decidida e forte como eu não acreditava que nem ela fosse capaz, encarou a doença como quem encara uma gripe, não ficou um dia sequer de cama, não teve reações à quimioterapia e radioterapia e ria até do fato de ficar carequinha, para mim foi uma lição, tanto de força da minha mãezinha como também uma lição de vida para uma pessoa que como eu sempre achou que a mãe ia durar para sempre.
O fato é que de uns tempos para cá ela que já não era de sair muito de casa foi ficando cada vez mais reclusa, cada vez mais fraca, cada vez mais triste. Mesmo tendo se livrado da doença que a afetou minha mãe começou a cair por qualquer outra coisa, uma crise de asma, uma dor na vesícula onde tem vários cálculos, ou uma simples gripe, qualquer coisa que a aborrecesse deixava minha mãezinha doente, junto a isso ela também foi ficando mais sozinha, minha irmã mais nova namorando quase não fica em casa, meu pai trabalhando como caminhoneiro sempre viajando, e as filhas casadas todas trabalhando sempre muito ocupadas para dar um alô, é minha mãe ficou deprimida, acho que toda a força que teve diante do malvado câncer acabou com a resistência dela para esse mal, essa doença que afeta a alma e enfraquece o corpo.
Ontem fiquei muito, mas muito preocupada, vi minha mãe chorando, meu pai desesperado porque além disso tudo ainda tem uns exames que não estão legais, mais motivo para ela ficar preocupada e trazer mais crises, o pior é que parece que só eu vejo isso, que só eu percebo que a mesa de domingo antes cheia agora abriga somente eu, meu marido e meus pais, que minha mãe prefere a casa cheia com muito serviço para fazer do que tudo limpinho sem ninguém dentro, parece que só eu tenho noção de que o que minha mãe passou era motivo mais do que suficiente para que cada uma de nós agradecesse todo dia por ainda ter a oportunidade de fazer o que ainda não fez por ela, de dizer eu te amo, de levar passear, de fazer algo que ela adora comer e levar lá só para mostrar o quanto ela é importante, sim porque para mim não há nada mais importante do que a minha mãe, não há nada no mundo que substitua uma mãe e sinceramente não quero levar para a minha família o remorso de ter sido uma má filha, não quero levar aos filhos que desejo ter o mau-exemplo de não ter amado minha mãe o tanto que ela merecia, porque ela merece tudo!
Minha mãe é extremamente ansiosa, sempre foi, mas hoje vejo que isso tem feito ela ficar doente, é a preocupação com o marido viajando, com uma filha que não está bem, com a outra que some, com a outra que é adolescente, com o cachorro, com o vizinho, com o tempo, tudo é motivo para ela sofrer e desencadear crises de dor seja lá onde for, o nervosismo, a depressão, a tristeza estão matando a pessoa que mais amo no mundo e eu não consigo fazer nada, já conversei com todo mundo, já falei que ela precisa de médico, que precisa se tratar, não das dores, da gripe ou da asma, mas da depressão, da angústia que está fazendo ela não comer, não viver. Já tentei convencer meio mundo de que não precisamos viver grudados e puxando o saco uns dos outros mas devemos sim cuidar dela, ela sim merece todas as atenções do mundo, ele merece carinho, merece chamego, merece amor, não estou falando de quem leva ela no médico, quem limpa a casa dela, isso tudo é irrelevante, estou falando de visitar, de ligar, de agradar, falar de coisas que não sejam doenças, críticas e aborrecimentos, minha mãe não precisa de mais aborrecimentos, mas mais uma vez parece que só eu vejo isso.
Minha vida está sempre um caos, a locadora que não dá grana, um monte de coisa em casa precisando arrumar, pra se ter uma idéia todas as cadeiras da minha cozinha estão quebradas, mas quando entro na casa da minha mãe ou ligo para ela evito qualquer problema, rio, faço piada, insisto pra ela comer, para se animar, faço o mínimo, sei que não é suficiente, que eu devia largar tudo e ficar o dia todo com ela, que devia saber dirigir pra levá-la onde precisa sem que ela esquentasse a cabeça toda vez, mas pra variar eu não consigo fazer nada mais do que simplesmente dar alguns minutos diários de atenção para minha rainha, sei lá, eu acho que não conseguiria não fazer isso, não ver minha mãe todo dia, não agradá-la, não pedir desculpas quando brigo e sou injusta com ela, não conseguiria passar um domingo sem almoçar com ela e mesmo assim tenho a impressão de que quando ela não estiver mais aqui terei uma culpa enorme por não ter passado mais momentos com ela, por não ter dito mais que a amo, por não tê-la privado mais dos meus problemas, por não ter sido boa o suficiente para ela ter orgulho de mim.
Mãezinha, minha querida, não seja malvada comigo, seja forte, seja guerreira como foi sempre, não quero ter um filho sem vó, quero que ele curta a avó doidona, quero ter um filho que jogue videogame com a vó, quero ter um filho que saiba o que é o almoço de domingo, as farras nas noites de sábado, as asneiras que vc apronta com o Dori, mãe, quero que você viva pelo menos mais uma vez a alegria de ter um netinho, quero que você curta cada momento e que o milagre da vida te atinja, quero que você vá embora só quando ficar velhinha, quero que você morra de velha numa cama quentinha enquanto dorme, não quero mais vê-la sofrer de tristeza, não quero mais vê-la sofrer por antecipação, não quero mais vê-la sofrer porque criou quatro filhas bobas que não te dão o devido valor, mãe quero que você viva 100 anos e todos sejam felizes!
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